Após estrear com uma missão que levou a maior delegação de profissionais brasileiros da história para o Festival Internacional de Cinema de Xangai (SIFF), com um total de 90 membros, a Plataforma Brasil de Audiovisual revela que ainda existem caminhos a serem explorados tanto pela TV, quanto pelo cinema nacional. Durante a viagem à China, a comitiva pôde se conectar com importantes empresas e instituições do setor e conhecer pessoalmente a infraestrutura do mercado audiovisual chinês, além de fortalecer os laços culturais entre os dois países por meio da realização da Mostra de Cinema Brasileiro em Xangai.
Confira a seguir três importantes conclusões que os profissionais tiveram a partir destas trocas:
1- HÁ INTERESSE NO QUE O BRASIL TEM A CONTAR
A iniciativa promoveu, em parceria com o Festival de Xangai, uma mostra dedicada especialmente à exibição de nove títulos brasileiros, dois dos quais também concorreram a prêmios no SIFF. Integrada ao calendário do maior festival de cinema da Ásia, a programação do Brasil despertou forte interesse do público chinês, com sessões chegando a esgotar ingressos. Diante da alta demanda, a Mostra de Cinema Brasileiro em Xangai chegou ao fim com um total de 52 exibições, quase o triplo do número inicialmente previsto.
A seleção reuniu desde animações até filmes clássicos e documentários que retratam questões próprias do contexto brasileiro, como "A Fabulosa Máquina do Tempo", em que a documentarista Eliza Capai acompanha hoje o crescimento de um grupo de meninas de Guaribas, cidade do interior do Piauí que recebeu o Programa Fome Zero no início dos anos 2000. Apesar de diversos títulos representarem uma realidade cultural e social muito diferente daquela vivenciada pelo público chinês, isso não impediu que os espectadores se interessassem pelas histórias que o Brasil tem a contar. Pelo contrário, como explica a produtora Mariana Genescá que foi à China representar o documentário: "Diversas pessoas vieram conversar conosco após a sessão, meninas com os olhos cheios d'água, que estavam claramente emocionadas, e que de fato se conectaram com as nossas personagens e com a nossa história".
2 - ALÉM DE PARCEIROS COMERCIAIS, PAÍSES COMO A CHINA PODEM SER PARCEIROS CULTURAIS
Atualmente, o Brasil tem a Argentina como seu maior parceiro em coproduções, como apontam os dados do Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015-2024, divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). Um dos fatores que explicam esse cenário é o Acordo Latino-Americano de Co-Produção Cinematográfica, assinado em 1989 por 10 países da região, que proporcionou as condições necessárias para fortalecer a relação entre as nações e foi o instrumento mais utilizado durante o período para viabilizar coproduções, representando 32% do total.
Pensando em alianças desse tipo, o Brasil vem acenando para países que integram o BRICS ao seu lado. Atualmente, o país está negociando um acordo de coprodução com a Rússia e trabalha para expandir sua relação com a China, considerada seu principal parceiro comercial desde 2009, também para o âmbito cultural.
Em 2017, o Brasil e a China deram um passo relevante nesta direção ao assinarem o Acordo de Coprodução de Filmes. Em 2023, fortaleceram ainda mais essa estratégia com o Acordo de Coprodução Televisiva. É interessante notar, porém, que antes disso a China já demonstrava uma receptividade a obras brasileiras. A novela "Escrava Isaura", por exemplo, se tornou um fenômeno entre os chineses nos anos 1980. A produção foi a primeira telenovela estrangeira exibida no país após a Revolução Cultural e rendeu à atriz Lucélia Santos o prêmio Águia de Ouro, o mais importante da TV chinesa.
3 - O DESENVOLVIMENTO DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO DEMANDA PLANOS ROBUSTOS A LONGO PRAZO
Além de participar de rodadas de negócios e encontros com players do mercado audiovisual no Festival de Xangai, a comitiva empresarial brasileira visitou estúdios e complexos cinematográficos chineses como o Hengdian World Studios, maior centro de produção cinematográfica e televisiva do mundo. Mas Hengdian não é só isso: é parte de um ecossistema e de um projeto nacional de desenvolvimento. Com uma infraestrutura robusta, o audiovisual chinês demonstra que os investimentos e planos de fortalecimento do setor podem e devem ser pensados de forma integrada com outros setores da economia, como a tecnologia e o turismo. Como fruto desses esforços, em 2025 a China produziu mais de 400 filmes e superou os 50 bilhões de yuans (o equivalente a R$ 38,6 bilhões) em bilheteria. Hoje, o país abriga o maior circuito exibidor do mundo, com cerca de 90 mil telas em atividade, número que está se expandindo e promete chegar a 100 mil.

A iniciativa promoveu, em parceria com o Festival de Xangai, uma mostra dedicada especialmente à exibição de nove títulos brasileiros. - Foto: Rayane Mainara
Enquanto isso, deste lado do globo, o Brasil também coloca em prática um projeto que também pensa no desenvolvimento do audiovisual a médio e longo prazo. Em 2026, o país atingiu o recorde de investimento público destinado ao cinema de sua história, chegando a R$1,41 bilhão, uma alta de 29% em um ano. Tal feito é parte do Plano de Ação 2026 do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) que, coordenado pela Ancine, busca impulsionar o desenvolvimento do setor alocando recursos em todas as regiões do país e em diferentes frentes, como a televisão, o cinema e as plataformas de streaming.
Além disso, cidades brasileiras já vêm pensando no audiovisual como parte importante de um ecossistema mais amplo, podendo fortalecer e gerar frutos também em outras áreas da economia, como o turismo. É o caso do Rio de Janeiro, que, por meio da RioFilme, está focando seus esforços em um Distrito Criativo que transformará a área do Parque Olímpico de 2016 em um polo de cinema e entretenimento na cidade. A previsão é de que, até o final do ano, o espaço já conte com centros de emissoras, como Globo e Record, e 16 estúdios audiovisuais.
O projeto tem como inspiração o modelo desenvolvido pelo Grupo Hengdian, com quem a RioFilme atualmente vem negociando uma parceria. Como explicou Leo Edde, diretor-presidente da RioFilme, em entrevista à Variety em agosto de 2026, a iniciativa busca adaptar ao contexto brasileiro um modelo que integra produção audiovisual, infraestrutura e desenvolvimento econômico.
Entre empresas e associações do mercado audiovisual, participaram representantes de diversos estados do país: Vitrine Filmes, Gullane, Sato Company, ORI Imagem & Som, Otto Desenhos Animados, Flamma Produções, Copa Studio, Pinguim Content, Coração da Selva, Olhar Filmes, Estúdio Giz, Movioca, Mixer Films, Quanta Works, FICA - Federação da Indústria e Comércio Audiovisual, Boulevard Filmes, Amorim Filmes, Cinema do Brasil, Formata, Las Margaridas, Lemos Consulting LTDA, Têm Dendê Productions, Abrasia e Instituto Cine+.
A Plataforma Brasil de Audiovisual é uma realização do Ministério da Cultura (MinC), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Ministério do Turismo (MTur), a Funarte, a Embratur, o Sebrae, o Instituto Guimarães Rosa, o Consulado-Geral do Brasil em Xangai e a Embaixada do Brasil em Pequim. O projeto tem patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Petrobras e da Caixa Econômica Federal, com produção executiva da Quitanda Soluções Criativas e do Instituto Ibero Culturas e cooperação da UNESCO.