O audiovisual brasileiro viu seu número de parcerias internacionais mais do que dobrar nos últimos três anos. É em meio a esse contexto que o país vem apostando em projetos como a Plataforma Brasil de Audiovisual, criada para promover a aproximação entre players do mercado brasileiro, investidores, fundos e empresas internacionais. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), os pedidos de Reconhecimento Provisório de Coprodução Internacional saltaram de 56 para 140 entre 2023 e 2025, período em que o Brasil protagonizou conquistas importantes no cenário internacional, como o primeiro Oscar do país, reforçando a necessidade de iniciativas voltadas ao fortalecimento do cinema brasileiro.
Em 2026, um ano depois da vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar, o Brasil levou ao Festival Internacional de Cinema de Xangai (SIFF), atualmente um dos principais do continente asiático, a maior delegação de profissionais do audiovisual de sua história, com um total de 80 membros. A comitiva viajou à China a convite da Plataforma, em busca de impulsionar e facilitar a internacionalização do cinema brasileiro a médio e longo prazo. Inicialmente organizada para levar 16 empresas ao Mercado Internacional de Cinema e TV de Xangai, o evento de mercado do SIFF, a missão contou com 22 empresas para representar o país, adquirindo um alcance ainda maior e ampliando a possibilidade de novos negócios.
Membro da delegação que foi a Xangai, Nelson Sato, presidente da distribuidora Sato Company, conta que os encontros propiciados pela Plataforma demonstram oportunidades tanto para a Sato quanto para as demais empresas brasileiras. Referência na distribuição de obras asiáticas, animes e animações de empresas como o Studio Ghibli, a Sato Company trabalha com a China desde a década de 1990, como explica Nelson Sato. “O endosso de ser convidado numa missão oficial do Brasil na China contribui na construção de credibilidade que, na Ásia em geral, somente o tempo e a conduta correta constroem”, afirma.

Nelson Sato, da Sato Company, e João Daniel Tikhomiroff, da Mixer Films, no estande da Plataforma Brasil de Audiovisual no evento de mercado do Festival de Xangai.- Foto: Rayane Mainara
De 2023 a 2025 a Ancine registrou um total de 124 obras realizadas em coprodução internacional. O número aponta para um crescimento se comparado com dados gerais da Agência sobre o período de 2015 até 2024, que contou com 242 coproduções ao todo. Iniciativas como a Plataforma só tendem a fortalecer esse quadro, como explica Zé Brandão, sócio-fundador do Copa Studio que também participou da missão no continente asiático:
“Rodando o mundo a gente consegue mais recursos para financiar nossas produções e também é uma divulgação do país como um todo. Nessas viagens a gente aprende novas formas de trabalhar, amplia nossa rede de contatos e consegue levar as histórias brasileiras para públicos que talvez nunca tivessem contato com elas. Iniciativas como a missão empresarial para a China são essenciais para mostrar nossa força como grupo, de maneira profissional, organizada e com objetivos comuns”.
Especializado em animações, o Copa Studio é conhecido pelo sucesso “Irmão do Jorel”, uma coprodução com a norte-americana Cartoon Network que está no ar desde 2014, sendo a série latino-americana mais longeva do canal.
“O audiovisual brasileiro tem vocação para rodar o mundo. Sobretudo as animações, que uma vez dubladas conseguem se conectar ao público sem barreiras culturais e idiomáticas”, explica Brandão.
Apesar disso, parcerias como a de “Irmão do Jorel” são casos mais raros. Ao longo de uma década, segundo o Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015-2024, grande parte das coproduções ocorre com países latinos, sendo a Argentina o maior parceiro do Brasil. Isso se dá por conta do Acordo Latino-Americano, como explica o estudo da Ancine, que liderou o período como o instrumento legal mais utilizado, representando 32% dos reconhecimentos de coprodução. Exemplos do tipo apontam para caminhos que podem fortalecer ainda mais o audiovisual brasileiro: os acordos internacionais.
Hoje considerada um dos maiores mercados cinematográficos do mundo, a China disputa frente a frente com países com tradição no audiovisual, como os Estados Unidos, chegando a ultrapassá-los em bilheteria. Acenando para esse novo cenário internacional, o Brasil firmou com a China o Acordo de Coprodução de Filmes em 2017 e, em 2023, ampliou ainda mais a relação com o Acordo de Coprodução Televisiva.
Para Clarissa Appelt, codiretora de “A Herança de Narcisa”, que foi a Xangai junto da protagonista Paolla Oliveira para representar o longa: “Temos que fazer esse showcase do cinema brasileiro no mundo. A China é um parceiro do Brasil em vários aspectos, então precisamos trabalhar também o aspecto cultural. A iniciativa foi uma forma incrível de fortalecer esse vínculo”.
Entre empresas e entidades do mercado audiovisual, participaram representantes de seis estados diferentes. São eles: Vitrine Filmes, Gullane, Sato Company, ORI Imagem e Som, Otto Desenhos Animados, Flamma Produções, Copa Studio, Pinguim Content, Coração da Selva, Olhar Filmes, Estúdio Giz, Movioca, Mixer Films, Quanta Works, Moveo e FICA - Federação da Indústria e Comércio Audiovisual.
A Plataforma Brasil de Audiovisual é uma realização do Ministério da Cultura (MinC), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), o Ministério do Turismo (MTur), a Funarte, a Embratur, o Sebrae, o Instituto Guimarães Rosa, o Consulado-Geral do Brasil em Xangai e a Embaixada do Brasil em Pequim. O projeto tem patrocínio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Petrobras e da Caixa Econômica Federal, com produção executiva da Quitanda Soluções Criativas e do Instituto Ibero Culturas e cooperação da UNESCO.