Uma carreira no cinema precisa de oportunidades para transformar uma boa história em um projeto capaz de alcançar o público. É nessa passagem entre criação e desenvolvimento profissional que atua a Academy Gold Fellowship for Women, a Bolsa de Ouro da Academia para Mulheres, que selecionou Tatti Ribeiro e Noora Niasari como suas contempladas de 2026.
Segundo o comunicado da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, as duas diretoras foram escolhidas entre dez finalistas. Realizado em parceria com a CHANEL, o programa oferece um ano de apoio, mentoria personalizada e acesso a oportunidades de relacionamento com profissionais da indústria.
A seleção reconhece trajetórias que já demonstraram capacidade de conquistar espaço no circuito internacional. Ribeiro chega ao programa com “Valentina”, seu primeiro longa-metragem e vencedor de diferentes premiações. Niasari ganhou projeção com “Shayda”, obra que recebeu o Prêmio do Público na competição internacional de cinema dramático do Festival de Sundance de 2023.
O que é a Bolsa de Ouro — e por que ela importa
A Bolsa de Ouro integra o trabalho global de desenvolvimento de talentos e educação da Academia. São concedidas duas bolsas por ano: uma para uma cineasta residente nos Estados Unidos e outra para uma profissional estabelecida fora do país. O objetivo é impulsionar realizadoras emergentes por meio de acompanhamento e acesso a redes profissionais.
Seu valor está na combinação de recursos, orientação e continuidade. A mentoria permite discutir decisões criativas e profissionais com pessoas experientes; as conexões ampliam as possibilidades de interlocução na indústria. Depois do período inicial, as contempladas continuam recebendo apoio por meio da rede de ex-participantes e do programa de mentoria da Academia, conforme o anúncio de 2026.
O comunicado deste ano não informa o valor financeiro destinado a cada vencedora. Como referência histórica, em 2022 a Academia divulgou US$ 35 mil para a bolsa dos Estados Unidos e € 20 mil para a internacional. Esses valores pertencem àquela edição e não podem ser apresentados como os montantes de 2026.
O reconhecimento também tem peso institucional: coloca as selecionadas em uma iniciativa da organização responsável pelo Oscar, dedicada a acompanhar o desenvolvimento de suas carreiras. Trata-se de uma bolsa de formação e apoio profissional, distinta das categorias competitivas da premiação cinematográfica.
Tatti Ribeiro: do jornalismo à criação de um cinema próprio

Jornalista e cineasta criada na região da Baía de São Francisco, Ribeiro é formada pela Escola de Artes Cinematográficas da Universidade do Sul da Califórnia, a USC.
Segundo a Academia, “Valentina” lhe rendeu o prêmio Someone to Watch no Independent Spirit Awards de 2026. O longa também conquistou reconhecimentos nos festivais de Austin, Mill Valley, Flórida e Dallas.
Ambientado na fronteira entre El Paso e Ciudad Juárez, o filme aproxima ficção e documentário ao colocar uma personagem fictícia em contato com pessoas e situações reais. A proposta permite abordar dificuldades econômicas e burocráticas a partir da experiência cotidiana de uma comunidade.
“Ao longo dos últimos dez anos, fazendo reportagens em El Paso, eu me divertia muito. Era isso que queria mostrar”, afirmou Ribeiro, em tradução livre, em entrevista ao Pacific Sun, publicada em outubro de 2025. A declaração revela uma escolha autoral: encontrar humanidade, humor e convivência em um território frequentemente apresentado apenas por suas tensões.
Noora Niasari: memória, sobrevivência e alcance internacional

Nascida em Teerã e criada na Austrália, Niasari transformou experiências familiares em matéria cinematográfica. “Shayda” acompanha uma mãe iraniana e sua filha em um abrigo para mulheres na Austrália, em uma narrativa inspirada na história da própria diretora.
“Minha intenção sempre foi contar uma história de sobrevivência e esperança”, declarou Niasari, em tradução livre, ao AwardsWatch, em dezembro de 2023. Na entrevista, explicou que o filme expressa a resistência de sua mãe e sua busca por liberdade.
Após a estreia premiada em Sundance, “Shayda” foi adquirido pela Sony Pictures Classics e escolhido como representante oficial da Austrália para concorrer a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional — etapa diferente de conquistar uma indicação entre os finalistas da categoria.
A trajetória demonstra como uma história profundamente particular pode estabelecer diálogo com públicos de diferentes países.
Uma mensagem para quem começa no Brasil
Para jovens brasileiros interessados no audiovisual, as duas trajetórias oferecem uma referência concreta: experiências locais, memórias familiares e investigação jornalística podem sustentar projetos com circulação internacional. A leitura desses percursos aponta para a importância de desenvolver uma voz própria e construir relações profissionais que permitam dar continuidade ao trabalho.
O acesso à Bolsa de Ouro, porém, segue critérios específicos. Conforme o comunicado, candidatas à modalidade dos Estados Unidos precisam ter participado de um programa de desenvolvimento de talentos da Academia ou ser indicadas por uma empresa parceira. Para profissionais estabelecidas fora dos EUA, é necessária uma recomendação de representante de organização cinematográfica, produtora ou festival internacional relevante.
Para cineastas brasileiras, isso torna especialmente importante a aproximação com instituições, produtoras e festivais capazes de conhecer e acompanhar seus projetos. A recomendação abre a possibilidade de avaliação; a escolha como bolsista representa uma etapa posterior de reconhecimento.
Ao selecionar Ribeiro e Niasari, a Academia reforça uma dimensão de sua atuação que merece atenção além da cerimônia do Oscar: investir nas pessoas que poderão criar os próximos filmes. Para quem começa, o exemplo das diretoras mostra a força de uma história própria — e a importância de encontrar condições para levá-la adiante.