Offline
Inspirado pelo ciberpunk e a cultura hacker, Davi Pretto utiliza ia para pensar seus riscos cognitivos em FUTURO FUTURO
Diretor relembra das situações adversas que o fizeram olhar para a IA não só como forma de crítica, como uma ferramenta para finalizar a obra, que seria consagrada como a grande vencedora do último Festival de Brasília
Publicado em 02/07/2026 12:47
CINEMA
Vivendo na parte empobrecida da cidade, K fica intrigado pelo intransponível lado rico da metrópole. - Foto: Divulgação

UTURO FUTURO, novo filme do cineasta gaúcho Davi Pretto ("Continente"), estreia nos cinemas brasileiros em 23 de julho pela distribuidora Cajuína Filmes. A obra se passa em um futuro próximo e apresenta um homem sem memória de 40 anos chamado K, que é acolhido por um clickworker solitário de 60 anos na parte empobrecida de uma chuvosa cidade brasileira. E, após usar um viciante dispositivo IA em um curso para pessoas com uma estranha síndrome neurológica, K embarca em uma jornada trágica e absurda.

Vivendo na parte empobrecida da cidade, K fica intrigado pelo intransponível lado rico da metrópole, que enxerga no horizonte – e passa a sonhar toda a noite  com um casal que vive em um condomínio de luxo, regado a festas e boemia. Assim, a ideia inicial de Pretto era utilizar algumas inserções de imagens de inteligência artificial nos sonhos de K, para causar contraste diante de algo totalmente estéril e destoante da realidade do personagem, junto de imagens de bairro  privado de luxo em Porto Alegre, para incorporar a crítica presente em FUTURO FUTURO. Porém tudo mudou quando uma enorme enchente afetou o estado do Rio Grande do Sul durante as filmagens, em 2024.

Mesmo com uma ideia muito clara do que queria, alternando entre imagens de prédios de luxo e de inteligência artificial, Pretto teve que recalcular rota. O diretor lembra que "isso mudou nos obstáculos políticos e climáticos que enfrentamos na filmagem. Os condomínios da cidade não deixaram que filmássemos lá e eles são, de alguma forma, inacessíveis, tal qual seu território. A solução foi recriarmos em um complexo empresarial, porém ele foi destruído durante a enchente nos últimos dias de filmagem e nunca mais pudemos voltar lá. Não era possível viajar para outra cidade, tão pouco podíamos pagar um acervo, por conta do alto preço, de imagens existentes que buscávamos mostrar". 

E, diante da catástrofe que assolou o Rio Grande do Sul em 2024, e precisando finalizar FUTURO FUTURO, que meses depois seria coroado com o Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem pelo Júri Oficial do Festival de Brasília, Pretto precisou recorrer à inteligência artificial e que, de maneira metalinguística, relembra que "a IA me pareceu então ainda mais central na própria impossibilidade de fazer o filme, pois ao meu ver é justamente isso o que ela promete: um mundo de ilusão, fantasia e supostas infinitas possibilidades enquanto o nosso mundo acaba pouco a pouco diariamente". 

K intrigado enquanto observa a parte rica da cidade, distante no horizonte. - Foto: Divulgação

Pretto ainda reforça sua preocupação ao utilizar inteligência artificial como ferramenta para a existência de FUTURO FUTURO, ao mesmo tempo em que se atenta em não fugir da estética e do que seu filme busca criticar. "Antes, sempre me mantive longe dessas ferramentas IA pelo que elas representam politicamente e esteticamente, mas ao fazer um filme sobre a IA, me pareceu necessário investigar que imagens são essas. O risco sempre esteve presente em meu trabalho. Eu precisava me arriscar a usá-las. Diferente de cineastas que ganham rios de dinheiro de grandes plataformas IA para fazer obras encomendadas com IA para exaltar as invenções dessas empresas, eu me pus a criar imagens de maneira amadora nas plataformas mais simples disponíveis, em modo free trial sempre que possível, como uma formiga que rouba farelos do prato de um imperador. Eu queria que essas imagens IA tivessem a estética asséptica que as propagandas dos condomínios privados usam e que justamente é a estética que essas plataformas IA são treinadas originalmente para replicar. São imagens que ao mesmo tempo parecem falsamente perfeitas e estéreis, carregam algo de vazio e horrendo".

Pretto não esconde que a literatura ciberpunk de William Gibson e Philip K. Dick e obras de pensadores políticos radicais, como Peter Lamborn Wilson, foram grandes inspirações no uso de inteligência artificial em FUTURO FUTURO. Para o cineasta, "é um gesto impuro, claro, até porque não acredito que há gestos moralmente perfeitos no mundo. Mas essa impureza me interessa. Há uma oposição evidente no filme das imagens que filmamos com as imagens IA usadas que se inserem à narrativa como um vírus. É nesse atrito que o filme convida o espectador a pensar".

Davi Pretto (FILM SERVIS FESTIVAL KARLOVY VARY). - Foto: Divulgação

FUTURO FUTURO investiga de forma provocativa imagens geradas por IA, tema que provoca intenso debate na indústria cinematográfica e no cotidiano. A obra reflete sobre os riscos cognitivos e políticos da inteligência artificial, que transforma o trabalho, as relações sociais e a percepção do que é real. Ao mesmo tempo, aborda os desafios do cinema independente em um mundo marcado por catástrofes climáticas e por imagens artificiais que redefinem nosso olhar e imaginário. Tudo isso partiu da vontade de Pretto de expressar a ideia da crise do sujeito, ou o colapso do sujeito que habita esse mundo em constante crise. A partir disto, o cineasta lembra que "me pareceu que seria um filme sobre esse acúmulo de crises que vivemos, ambiental, tecnológica, urbana, política, do trabalho, de saúde mental, de identidade... e claro, crise das imagens".

Produzido pela Vulcana Cinema e rodado em Porto Alegre, o filme é o quarto longa de Davi Pretto que, depois de "Castanha" (2014), "Rifle" (2016) e de "Continente" (2024), transformou sua cidade natal em uma metrópole futurista nesta ficção-científica de baixo orçamento. Para interpretar K, personagem protagonista, o diretor escalou o potiguar Zé Maria, ator conhecido por seus trabalhos em filmes como "O Clube dos Canibais" (2018) e "Paloma" (2022), além da série "Maria e o Cangaço" (2025).

Zé Maria contracena com João Carlos Castanha, que batiza e protagoniza o primeiro filme do cineasta, além de Carlota Joaquina ("Seus Ossos e Seus Olhos"), Clara Choveaux ("Luz nos Trópicos") e Higor Campagnaro ("O Animal Amarelo"). Olivia Torres, atriz de "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar de Filme Internacional, e protagonista de "Continente", também empresta sua voz para o novo trabalho de Pretto.

FUTURO FUTURO, além de ter conquistado no último Festival de Cinema de Brasília o Troféu Candango de Melhor Longa-Metragem pelo Júri Oficial, também foi premiado por Melhor Roteiro, Montagem e Menção Honrosa para o ator Zé Maria Pescador. O filme estreou mundialmente na competição do importante Festival Internacional de Karlovy Vary, na República Tcheca, um dos mais antigos da Europa.

FUTURO FUTURO tem distribuição da Atelier W e Cajuína Filmes e estreia nos cinemas em 23 de julho. A distribuição do filme é patrocinada pelo BNDES através do Patrocínio Cultural No 01/2025 – BNDES – Projetos Audiovisuais de Longa-Metragem.

SOBRE O FILME

Ficção científica nada convencional e de baixíssimo orçamento, "FUTURO FUTURO" foi rodado em apenas 16 dias em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A produção teve suas filmagens interrompidas por meses devido à maior enchente da história do estado, em maio de 2024. Um filme distópico que se deparou com uma distopia real inimaginável. Depois que a enchente inundou locações que ainda fariam parte das filmagens, e diante de recursos escassos para concluir as diárias, Davi decidiu incorporar radicalmente imagens de inteligência artificial, tanto como o elemento distópico previsto na história, quanto como uma solução para terminar o filme.

O filme investiga de maneira provocativa o potencial poético na estupidez e absurdo da imageria IA, que gera intenso debate na indústria cinematográfica e no nosso cotidiano. FUTURO FUTURO reflete sobre os perigos cognitivos e políticos dos avanços da inteligência artificial, tecnologia que tem mudado o mundo do trabalho, das relações sociais e alterado a nossa percepção do que é real e o que não é. Ao mesmo tempo, se debruça sobre os desafios e limitações do próprio fazer cinema independente em um mundo transformado por catástrofes climáticas constantes e por imagens artificiais que redefinem radicalmente nosso olhar e nosso imaginário.

O DIRETOR

Davi Pretto (Porto Alegre, 1988) escreveu e dirigiu os longas "Castanha" (2014), estreado na mostra Forum do 64º Festival de Berlim e eleito Melhor Filme da mostra Novos Rumos no Festival do Rio, "Rifle" (2016) exibido na Forum do 67º Festival de Berlim e vencedor dos prêmios da Crítica e Roteiro no Festival de Brasília, "Continente" (2024) exibido na competição do 57º Festival de Sitges e eleito Melhor Direção na mostra Novos Rumos do Festival do Rio, e FUTURO FUTURO (2025) que teve sua estreia mundial no 59º Festival de Karlovy Vary, na mostra competitiva Proxima, e recebeu quatro prêmios no 58º Festival de Brasília, incluindo Melhor Filme.

SINOPSE

Em um futuro próximo, onde os avanços em inteligência artificial coexistem com o surgimento de uma nova síndrome neurológica, um homem sem memória de 40 anos chamado K é acolhido por um clickworker solitário de 60 anos na parte empobrecida de uma chuvosa cidade brasileira. Após usar um viciante dispositivo IA em um curso para pessoas com a estranha síndrome, K embarca em uma jornada trágica e absurda para tentar encontrar o seu lugar no mundo.

Comentários
Comentário enviado com sucesso!