Marco histórico do cinema brasileiro, XICA DA SILVA volta às telas em cópia restaurada e terá sua primeira exibição pública antes do relançamento nacional durante a 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, um dos principais eventos dedicados à preservação audiovisual no país. O filme será exibido no dia 28 de junho, integrando a Mostra Preservação, e volta a estar em destaque no dia 30 de junho, quando a restauração do longa será tema da mesa "Apresentação de cases de restauro – Xica da Silva e Vento Norte", dentro da programação do Encontro de Arquivos da mostra. A CineOP acontece entre 25 e 30 de junho, em Ouro Preto (MG), e é reconhecida por tratar o cinema como patrimônio, articulando memória, história, preservação e educação em sua programação.
Sucesso de bilheteria que levou mais de 3,1 milhões de espectadores aos cinemas, XICA DA SILVA foi lançado em 1976 e revolucionou a maneira de representar o negro no audiovisual brasileiro ao colocar uma mulher negra no centro absoluto da narrativa. Dirigido por Cacá Diegues e protagonizado por Zezé Motta, o longa combinou humor, erotismo, música, espetáculo e crítica histórica em uma linguagem popular, tornando-se um dos títulos mais emblemáticos do cinema nacional. Às vésperas de completar 50 anos, o filme retorna agora em versão restaurada em 4K e estreia nacionalmente em circuito comercial no dia 16 de julho, pela Sessão Vitrine Petrobras.
A exibição na CineOP reforça a dimensão patrimonial da obra dentro de uma mostra pioneira, criada em 2006, que se consolidou como referência no debate sobre preservação audiovisual no Brasil. Em sua 21ª edição, a CineOP dedica a temática Preservação ao eixo "Primeiros gestos na preservação audiovisual: práticas, memórias e formação" e reúne cópias restauradas de obras fundamentais da cinematografia brasileira. Entre os destaques da Mostra Preservação deste ano estão XICA DA SILVA, VENTO NORTE e O ÉBRIO, em diálogo com filmes e atividades que pensam o cinema como memória viva e patrimônio cultural.
No dia 30 de junho, às 9h30, o filme volta ao centro da programação da mostra na mesa "Apresentação de cases de restauro – Xica da Silva e Vento Norte", atividade que integra o Encontro de Arquivos da CineOP. A sessão propõe uma reflexão sobre os processos de preservação, as escolhas éticas e técnicas envolvidas na restauração e os caminhos de salvaguarda de obras fundamentais do cinema brasileiro, oferecendo ao público e aos profissionais do setor a oportunidade de conhecer mais de perto os bastidores do restauro de XICA DA SILVA. A mesa integra Débora Butruce, coordenadora da restauração do filme, Renata Almeida Magalhães, diretora-presidente da Academia Brasileira de Cinema e viúva do diretor Cacá Diegues e a gerente executiva da Vitrine Filmes, Carla Domingues. Débora Butruce ressalta que "trazer de volta Xica da Silva, em todo o seu esplendor cromático e em resolução 4K, é oferecer a oportunidade para que novas gerações de espectadores descubram o filme em toda a sua potencialidade. É também proporcionar a oportunidade de que as questões raciais suscitadas pelo filme, a partir dessa personagem mítica brilhantemente interpretada por Zezé Motta, voltem a ser debatidas em toda a sua complexidade."
Adaptado do livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio, de João Felício dos Santos, o filme criou uma versão irreverente, sensual e subversiva da personagem histórica Chica da Silva, frequentemente apontada como um comentário ousado, ainda que indireto, sobre o regime autoritário que governava o Brasil à época de seu lançamento. Além do imenso sucesso de público, XICA DA SILVA representou a consagração de Zezé Motta, amplamente aclamada pela crítica e vencedora de alguns dos principais prêmios do cinema brasileiro por sua atuação no longa.
Xica da Silva foi uma mulher negra escravizada que, após conquistar a alforria, rompeu os padrões de sua época ao manter por cerca de 15 anos uma relação pública com João Fernandes de Oliveira, contratador de diamantes e um dos homens mais ricos do Império Português. Com ele, teve 13 filhos, criados com privilégios raramente concedidos a descendentes de uma ex-escravizada. Após a partida de João Fernandes para Portugal, Xica assumiu a administração de parte dos negócios e consolidou uma posição de destaque na sociedade local.
"Poucos filmes brasileiros carregam tantas cores quanto XICA DA SILVA. Restaurá-lo é preservar a força de uma obra que rompeu padrões, exaltou a cultura negra, colocou uma mulher no centro da narrativa e conquistou o público sem abrir mão de sua ousadia", afirma Silvia Cruz, idealizadora da Sessão Vitrine Petrobras e sócia da Vitrine Filmes.
Nascido em Maceió, em 1940, Carlos Diegues foi um dos mais importantes cineastas brasileiros e um dos fundadores do Cinema Novo, ao lado de nomes como Glauber Rocha, Leon Hirszman, Paulo César Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade. XICA DA SILVA tornou-se seu maior sucesso comercial e o primeiro de seus filmes a ser escolhido para representar o Brasil no Oscar. Dono de uma filmografia decisiva para a história do cinema nacional, Diegues faleceu no início de 2025, deixando como obra derradeira o longa Deus Ainda É Brasileiro.

SINOPSE
Na segunda metade do século XVIII, a negra escravizada Xica da Silva torna-se o centro das atenções no Distrito Diamantino, onde estão as minas mais ricas do país. João Fernandes, representante da Coroa Portuguesa, apaixona-se por Xica e a transforma na Rainha do Diamante, satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder de Xica na colônia.