Brasília se torna, a partir de agora, um dos principais eixos de reflexão sobre a arte latino-americana no cenário contemporâneo. Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, a exposição Joaquín Torres García – 150 anos não apenas celebra a trajetória de um dos mais influentes artistas do século XX — ela reconfigura, com rigor crítico e ambição intelectual, o lugar da América do Sul na história global da arte.
Mais do que uma retrospectiva, a mostra se apresenta como um gesto curatorial de reposicionamento. Ao reunir obras emblemáticas de Joaquín Torres García em diálogo com mais de 70 artistas modernos e contemporâneos, o projeto rompe com leituras convencionais e propõe uma revisão profunda de sua contribuição estética e conceitual. Trata-se de uma operação simbólica: deslocar o eixo interpretativo da arte, invertendo hierarquias historicamente consolidadas e afirmando a centralidade do sul como potência criativa.
A força dessa abordagem está diretamente associada à curadoria de Saulo di Tarso, cujo trabalho evidencia não apenas erudição, mas um esforço consistente de articulação entre tradição e contemporaneidade. Ao mobilizar acervos de instituições como o Museo Torres García, IVAM, MACBA, Fundación Telefónica e coleções brasileiras de relevância, o curador constrói um panorama que transcende fronteiras geográficas e temporais. Seu empenho se traduz na reunião de obras raramente vistas em conjunto — algumas delas inéditas ao público brasileiro — compondo um tecido narrativo denso e multifacetado.
Nesse percurso, emergem peças fundamentais que ajudam a compreender a complexidade do pensamento de Torres García. Trabalhos como América do Sul Universalismo (1943) e Adão e Eva diante de uma palmeira (1930) evidenciam a maturidade de uma linguagem que busca conciliar ordem e simbolismo, geometria e espiritualidade. Já obras como Rua e café (1929) e Máscara (1928) revelam o trânsito do artista entre as vanguardas europeias e sua posterior inflexão latino-americana — um movimento que culmina na formulação do chamado Universalismo Construtivo.

A exposição também investe em um diálogo consistente com a arte brasileira. - Foto: Rogacioano José (Rogá)/essaBrasil
Esse conceito, central à exposição, ganha aqui uma leitura expandida. Longe de ser apenas um sistema formal, ele se afirma como uma filosofia estética que propõe a construção de uma identidade cultural autônoma, capaz de dialogar com o universal sem abdicar de suas raízes. Ao incorporar referências africanas, indo-americanas e populares, Torres García antecipa discussões que hoje atravessam o pensamento decolonial e as práticas artísticas contemporâneas.
A exposição também investe em um diálogo consistente com a arte brasileira, ampliando ainda mais seu campo de ressonância. Obras de nomes como Bispo do Rosário, Lygia Clark, Hélio Oiticica e Anna Bella Geiger tensionam e enriquecem a leitura do legado construtivo, revelando aproximações formais e conceituais que atravessam décadas. Esse cruzamento não apenas reafirma a atualidade do artista uruguaio, mas evidencia a existência de uma rede simbólica latino-americana ainda em processo de reconhecimento pleno.
Outro aspecto que se destaca é a dimensão pedagógica presente na obra de Torres García, explorada com sensibilidade na curadoria. Seus desenhos, manuscritos e experimentações — incluindo a célebre série História da minha vida (1937) — revelam uma concepção de arte profundamente ligada à formação do olhar e à construção do pensamento. Para o artista, criar era também educar: um exercício de síntese, invenção e reorganização do mundo.

A abertura da mostra reforça essa perspectiva expandida ao incorporar a performance Fricções, da artista Juliana Notari. Ao articular marionete, dança e música em diálogo com o universo simbólico de Torres García, a obra estabelece uma ponte entre passado e presente, traduzindo em linguagem contemporânea os princípios do construtivismo universal.
Ao celebrar os 150 anos de nascimento de Joaquín Torres García, o CCBB Brasília não apenas presta homenagem a um mestre — propõe uma revisão crítica necessária. Em um momento em que a arte latino-americana reivindica maior protagonismo no circuito internacional, a exposição se impõe como um marco: densa, provocadora e, sobretudo, urgente.
Mais do que olhar para o passado, a mostra convida o público a reimaginar o futuro — a partir de um sul que deixa de ser margem para se afirmar como centro.