
Nesta sexta-feira (28), estreiam na FILMICCA dois filmes brasileiros que ampliam a visibilidade de narrativas LGBTQIAPN+ no audiovisual nacional: 'Os Primeiros Soldados' (2021), de Rodrigo de Oliveira, e 'Uýra – A Retomada da Floresta' (2022), de Juliana Curi. Cada uma à sua maneira, as duas obras abordam temas urgentes como transfobia, racismo, sorofobia, ancestralidade e resistência.
Além de reafirmarem a potência criativa do cinema brasileiro contemporâneo, os dois títulos destacam trajetórias marcadas pela luta contra apagamentos históricos e pelo fortalecimento de identidades. Enquanto 'Os Primeiros Soldados' mergulha na experiência de pessoas LGBTQIAPN+ durante a primeira onda da epidemia de AIDS nos anos 1980, 'Uýra – A Retomada da Floresta' acompanha a força transformadora da arte performática indígena como caminho de resistência e cura.
Confira mais sobre as estreias:
UÝRA – A RETOMADA DA FLORESTA (2022)
Juliana Curi
Brasil
1h 10min

Dirigido pela cineasta brasileira premiada Juliana Curi, cujo trabalho destaca mulheres e vozes diversas ao unir estética ousada e narrativa socialmente engajada, 'Uýra – A Retomada da Floresta' (2022) é um documentário emocionante que acompanha a jornada de autodescoberta de Uýra Sodoma, artista indígena trans que transforma seu corpo e sua arte em instrumento de resistência.
Na obra, Uýra viaja pela Amazônia usando a arte performática e mensagens ancestrais para ensinar jovens indígenas e enfrentar o racismo estrutural e a transfobia no Brasil. Uýra Sodoma lidera um movimento crescente por meio das artes e da educação, ao mesmo tempo que promove a união e inspira os movimentos LGBTQIAPN+ e ambientalistas no coração da Floresta Amazônica, enquanto suas performances se inspiram no ciclo ecológico que espelha as lutas sociais: a destruição do solo e a violência contra a vida, seguidas pelo ressurgimento de plantas jovens que germinam rapidamente e abrem caminho para um ecossistema renovado e mais forte.
Em entrevista à jornalista, professora e pesquisadora Juliana Gusman, do portal Cine Ninja, Uýra afirmou que o filme "é um convite ao diálogo", revelando "as violências, forças e lutas no Brasil, para que o Brasil e os mundos conheçam de verdade as Amazônias". Ela enfatiza que o diálogo é essencial para proteger as florestas, combater estereótipos racistas e ampliar o acesso de pessoas indígenas e LGBTQIAP+ a espaços de valor simbólico e econômico dos quais historicamente foram excluídas. "São nesses diálogos que provocamos curas antigas e profundamente presentes no agora, onde redemarcamos nossos saberes, culturas e valores. Carregamos infinitas vozes, muitas que nem são de gente", completa a artista.
OS PRIMEIROS SOLDADOS (2021)
Rodrigo de Oliveira
Brasil
1h 47min

Com estreia internacional no 70º Festival Internacional de Cinema de Mannheim-Heidelberg (IFFMH) e exibido no 52º Festival Internacional de Cinema da Índia (IFFI), em Goa, o filme se passa em 1983, e acompanha o jovem biólogo brasileiro Suzano (Johnny Massaro) tentando sobreviver à primeira onda da epidemia de AIDS. O desespero diante da falta de informação e do futuro incerto aproxima Suzano da artista transexual Rose (Renata Carvalho) e do videomaker Humberto (Victor Camilo), igualmente doentes.
Roteirista e diretor da obra, Rodrigo de Oliveira destacou em entrevistas que o filme foi concebido com um elenco inteiramente LGBTQIAP+, que inclui também Clara Choveaux, Alex Bonin, Higor Campagnaro e Daniel Monjardim, escolhido não apenas pelo talento, mas pela conexão direta com as vivências retratadas, algo que ele descreve como "mágico".
Ambientado na capital do Espírito Santo, o longa também enfrentou o desafio de recriar a Vitória dos anos 1980. A equipe buscou locais que ainda preservassem a estética da época e utilizou a cidade com liberdade poética e memória afetiva, reconstruindo ambientes frequentados pela comunidade LGBTQIAPN+ em um período marcado por ainda mais preconceito e desinformação. A pesquisa histórica foi fundamental tanto para caracterizar os personagens quanto para criar uma ambientação fiel e sensível ao contexto daquele momento.
E mais!
Além de 'Uýra – A Retomada da Floresta' e 'Os Primeiros Soldados', estreiam na FILMICCA nesta sexta-feira também três títulos que ampliam ainda mais a diversidade de gêneros, épocas e olhares.
O clássico noir 'Almas Perversas' (Scarlett Street, 1945), de Fritz Lang, acompanha a trágica queda de Christopher Cross, um artista amador manipulado por uma dupla de golpistas em um dos grandes marcos do cinema policial americano. Já o curta brasileiro 'Alfazema' (2019), de Sabrina Fidalgo, traz o humor ácido e afiado do carnaval carioca ao narrar o dilema de Flaviana, que precisa se livrar de um amante inconveniente que simplesmente não sai do seu chuveiro. Fechando as estreias, o premiado drama francês 'Théo & Hugo' (2016), de Olivier Ducastel e Jacques Martineau, segue dois jovens que, após um encontro arrebatador em um clube de sexo, percorrem uma Paris noturna e luminosa enquanto descobrem a força e a vulnerabilidade de um amor que nasce em meio ao desejo.